terça-feira, 4 de setembro de 2007

Batalhão Roubado.

A ansiedade só não conseguia vencer o sono dos inocentes.
E os garotos de alma pura, vencidos pelo cansaço, acordavam antes dos galos – com os quais dormiam e acordavam os adultos -, e, excepcionalmente encurtando as rezas, pulavam da cama para correrem o dia inteiro entre o local dos preparativos dos comes e bebes e o eito que seria lavrado - “sem o dono das terras saber” -, local do plantio de inverno, invariavelmente milho e feijão.
Era uma festa!
Abrindo um parêntese, continuo sem entender a razão de não fazermos o cultivo de subsistência do arroz no Sertão, uma vez que esta cultura vinga onde dá milho e feijão.
Parêntese fechado, volto à festa.
Os homens, ferramentas nas mãos calejadas e o canto dolente na garganta, faziam questão do testemunho do sol indicando o muito trabalho já realizado com os primeiros raios.
Tudo era festa!
A criançada enlouquecida, com direitos assegurados pelas “visitas”, fazia todo tipo de peraltice. Aliás, peraltice nada, esta palavra é meio besta. Fazendo todo tipo de sacanagem, impunemente tomava banho nos tanques normalmente proibidos, montava os cavalos mais metidos a besta, badogava bichos e até desafetos, não atendia aos chamados que em dias normais o fazia com a reverência devida aos mais velhos. Tudo transcorria com a certeza de que não haveria ajustes de contas.
Tudo era festa!
As mulheres caprichavam na comida farta.
E o dono da fazenda contemplada pelo trabalho andava pra lá e pra cá, mais ou menos igual aos meninos, só que com cara de besta, fazendo de conta que “não sabia de nada”. Êpa! Estado de espírito recorrente em mandatários!
Este Brasil é uma festa!
Enquanto a criançada malinava, as mulheres laboravam e o dono da fazenda intrujava, os que faziam o batalhão roubado botavam pra quebrar para no final do dia deixar o roçado preparado para a subsistência do ano inteiro que se avizinhava.
Êta gente de brio!
Chegava a hora do rango e fazia gosto ver a turma merecidamente “bater aquele pratão” de comida, depois de uma quente (hoje é bola de fogo), seguido de um cafezinho feito no capricho.
Este cafezinho e o pratão merecem outro parêntese: o café era comprado em grãos na venda de Jeová em Lamarão, torrado e moído em casa pelos meninos, normalmente à base de uns bem aplicados cascudos... Quanto ao pratão, a turma costumava brincar tentando adivinhar quem estava por detrás daquela montanha...
Era uma festa
Mas a festa estava chegando ao fim e já batia aquela nostalgia (sentida também por criança, viu gente?) da bendita invasão de privacidade que conferia liberdade para a criançada zonear a vontade.
Liberdade! Êta bicho bom, sô!
O agronegócio passou os tratores no batalhão roubado dos nossos tempos de criança.
Que saudades do Ataulfo Alves e dos batalhões roubados.