Estudante na Universidade de Brasília (UNB) nos anos 70, participei de um curso de extensão universitária denominado CONTROLE DE ENDEMIAS RURAIS, com palestras do então Ministro da Saúde, Doutor Almeida Machado e do Superintendente da SUCAM, Doutor Ernani.
Em determinado momento de sua palestra o ministro menciona a região de Serrinha e os municípios próximos como foco endêmico de peste bubônica, como conseqüência de armazenagem inadequada da produção de grãos que atraem os ratos, e etc. e tal.
Colegas presentes no auditório, cientes da minha origem, caem na gargalhada e eu entupo a boca deles com um argumento definitivo, sob a aprovação das excelências presentes: “Em compensação, desconheço quaisquer registros de óbitos na região, graças à ação dos guardas da SUCAM”.
Os guardas da SUCAM desfrutavam de um respeito no interior desse país que só encontrava paralelo nas figuras do médico de família e do padre. Ao Guarda da Peste, ao Médico e ao Padre, estavam reservados os melhores pratos e as melhores camas, além da reverência de todos.
A criançada tá com verme? Tem alguém em casa com tracoma? O cotovelo tá doendo? Estou sem notícias da cidade? O guarda da SUCAM resolve. Aliás, tal reverência datava de priscas eras, ainda no tempo do DNERu (lembram?), o Departamento Nacional de Endemias Rurais.
O Guarda da Peste era o elo que ligava o povo da roça com a civilização. Ele trazia remédios para os nossos males e informações que nos ensinavam a prevenir, mas trazia também notícias de um mundo distante, quase inacessível nas suas 20 léguas da nossa sede de saber.
Aí vem um bando de bem nascidos com suas panças infladas de bem viver e implode um sistema que sempre deu certo e fez a alegria do povo humilde, criando uma tal de Fundação Nacional de Saúde, cuja sigla, Fê Nê Si, está mais para nome de bolero mexicano, que ultimamente figura nas páginas policiais da imprensa do país pela roubalheira generalizada nesse cabide de emprego.
Em nome da redução do tamanho do estado, minimizaram a necessidade do povo e municipalizaram as ações de saúde, sem a devida contrapartida da necessária fiscalização, e o que se vê é o recrudescimento de doenças que os nossos Guardas da Peste mantinham sob controle e do desvio das verbas públicas em benefício de xepeiros, apaniguados e da parentalha do oficialismo.
E o povo... Povo, povo, que instituição é esta?
sábado, 24 de novembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
NOS TEMPOS DO LOBISOMEM E DE OUTROS TEMORES.
Aristeu Alves Lima
Dia desses um casal de idosos, completamente indefeso, foi assaltado e brutalizado dentro da própria casa, mesmo entregando todo o dinheiro de que dispunha aos autores da valentia.
O fato chocou a população local, repercutiu na imprensa, mas os valentes autores da façanha estão na aérea e prometendo mais, absolutamente certos da impunidade.
Não estamos falando de nenhuma periferia violenta de qualquer cidade grande. Trata-se da zona rural de Lamarão, distante 6 km da sede do município e a 18 km de Serrinha.
Volto no tempo, adolescente na mesma região, indo a “boca da noite” pela estrada comprar querosene para o fifó, em cumprimento à determinação clara que deixou de ser cumprida na companhia do sol.
A semi-escuridão da ida e a escuridão total da volta escondiam lobisomens, “almas do outro mundo” – como se as houvesse deste -, e outros temores, tudo exorcizado pela presença mágica do gado, tangido estrada afora como companhia contra todos os males do mundo.
De noite, portas fechadas, fifó acesso, zumbi podia rachar o bico (ou seria a boca?) de assobiar lá fora, lobisomem podia se esgoelar de uivar, mula sem cabeça escoiceasse à vontade.
O cobertor cobrindo dos pés a cabeça (de fora só “os buracos do nariz” para respirar); mais uns “pai-e-nosso” e “umas ave-maria”; e, quando mesmo assim o medo não cedia o tiro final: a promessa de uma vela acessa na Igreja de Santana em Serrinha, e o sono se sobrepunha à agitação.
Tais abstrações do nosso folclore concretizaram-se em figuras sinistras que hoje povoam os pesadelos do povo da roça: assombrações de carne e osso que o antídoto da magia do gado não resolve, zumbis vivíssimos cujos assobios são gritos histéricos de ordens absurdas e abusivas.
Definitivamente a convivência com lobisomem, zumbi, alma penada, saci, mula sem cabeça, era bem menos perigosa.
Dia desses um casal de idosos, completamente indefeso, foi assaltado e brutalizado dentro da própria casa, mesmo entregando todo o dinheiro de que dispunha aos autores da valentia.
O fato chocou a população local, repercutiu na imprensa, mas os valentes autores da façanha estão na aérea e prometendo mais, absolutamente certos da impunidade.
Não estamos falando de nenhuma periferia violenta de qualquer cidade grande. Trata-se da zona rural de Lamarão, distante 6 km da sede do município e a 18 km de Serrinha.
Volto no tempo, adolescente na mesma região, indo a “boca da noite” pela estrada comprar querosene para o fifó, em cumprimento à determinação clara que deixou de ser cumprida na companhia do sol.
A semi-escuridão da ida e a escuridão total da volta escondiam lobisomens, “almas do outro mundo” – como se as houvesse deste -, e outros temores, tudo exorcizado pela presença mágica do gado, tangido estrada afora como companhia contra todos os males do mundo.
De noite, portas fechadas, fifó acesso, zumbi podia rachar o bico (ou seria a boca?) de assobiar lá fora, lobisomem podia se esgoelar de uivar, mula sem cabeça escoiceasse à vontade.
O cobertor cobrindo dos pés a cabeça (de fora só “os buracos do nariz” para respirar); mais uns “pai-e-nosso” e “umas ave-maria”; e, quando mesmo assim o medo não cedia o tiro final: a promessa de uma vela acessa na Igreja de Santana em Serrinha, e o sono se sobrepunha à agitação.
Tais abstrações do nosso folclore concretizaram-se em figuras sinistras que hoje povoam os pesadelos do povo da roça: assombrações de carne e osso que o antídoto da magia do gado não resolve, zumbis vivíssimos cujos assobios são gritos histéricos de ordens absurdas e abusivas.
Definitivamente a convivência com lobisomem, zumbi, alma penada, saci, mula sem cabeça, era bem menos perigosa.
Assinar:
Postagens (Atom)