segunda-feira, 19 de novembro de 2007

NOS TEMPOS DO LOBISOMEM E DE OUTROS TEMORES.

Aristeu Alves Lima

Dia desses um casal de idosos, completamente indefeso, foi assaltado e brutalizado dentro da própria casa, mesmo entregando todo o dinheiro de que dispunha aos autores da valentia.

O fato chocou a população local, repercutiu na imprensa, mas os valentes autores da façanha estão na aérea e prometendo mais, absolutamente certos da impunidade.

Não estamos falando de nenhuma periferia violenta de qualquer cidade grande. Trata-se da zona rural de Lamarão, distante 6 km da sede do município e a 18 km de Serrinha.

Volto no tempo, adolescente na mesma região, indo a “boca da noite” pela estrada comprar querosene para o fifó, em cumprimento à determinação clara que deixou de ser cumprida na companhia do sol.

A semi-escuridão da ida e a escuridão total da volta escondiam lobisomens, “almas do outro mundo” – como se as houvesse deste -, e outros temores, tudo exorcizado pela presença mágica do gado, tangido estrada afora como companhia contra todos os males do mundo.

De noite, portas fechadas, fifó acesso, zumbi podia rachar o bico (ou seria a boca?) de assobiar lá fora, lobisomem podia se esgoelar de uivar, mula sem cabeça escoiceasse à vontade.

O cobertor cobrindo dos pés a cabeça (de fora só “os buracos do nariz” para respirar); mais uns “pai-e-nosso” e “umas ave-maria”; e, quando mesmo assim o medo não cedia o tiro final: a promessa de uma vela acessa na Igreja de Santana em Serrinha, e o sono se sobrepunha à agitação.

Tais abstrações do nosso folclore concretizaram-se em figuras sinistras que hoje povoam os pesadelos do povo da roça: assombrações de carne e osso que o antídoto da magia do gado não resolve, zumbis vivíssimos cujos assobios são gritos histéricos de ordens absurdas e abusivas.

Definitivamente a convivência com lobisomem, zumbi, alma penada, saci, mula sem cabeça, era bem menos perigosa.

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